Juros, crédito imobiliário e investimentos estarão no centro das perspectivas para o setor, seja em uma reeleição de Lula ou em uma vitória de Flávio Bolsonaro.
O mercado da construção civil acompanha o cenário eleitoral com uma pergunta prática: quais serão as condições para investir, construir e vender nos próximos anos?
Para construtoras, incorporadoras e fornecedores, o resultado das urnas pode influenciar as prioridades de investimento, as políticas habitacionais e o ambiente de negócios. Entretanto, o desempenho do setor dependerá também da inflação, da disponibilidade de financiamento e da capacidade do próximo governo de transformar propostas em medidas efetivas.
Entender esses fatores ajuda a avaliar os possíveis cenários para a construção civil a partir de 2027, sem reduzir uma análise econômica à preferência por um candidato.
O ponto de partida: demanda por obras e pressão sobre os custos
Em maio de 2026, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) revisou sua projeção de crescimento do setor de 2% para 1,2%. A entidade apontou juros elevados e pressões sobre os custos como obstáculos à expansão. A alta do petróleo também trouxe preocupação para a cadeia de materiais, incluindo tubos, conexões e outros produtos que utilizam seus derivados.
Esse quadro ajuda a explicar por que a existência de demanda não garante, por si só, a viabilidade de novos empreendimentos. É necessário que o comprador consiga financiar o imóvel e que a construtora tenha condições de executar a obra dentro do orçamento.
Na agenda apresentada por representantes do setor para o próximo governo, destacam-se o acesso ao crédito, a redução da burocracia, a qualificação profissional e o aumento da produtividade.
Se Lula for reeleito: continuidade dos investimentos e atenção ao financiamento
As propostas de Lula disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral incluem infraestrutura e logística por meio do Novo PAC, estímulo à indústria e responsabilidade fiscal. Essas diretrizes indicam a intenção de manter o investimento e as políticas de desenvolvimento como instrumentos de atuação do governo.
Para a construção civil, uma possível consequência dessa orientação seria a continuidade de oportunidades ligadas a obras e programas públicos. A atividade habitacional também merece atenção: o Minha Casa, Minha Vida está entre os fatores que vêm sustentando o desempenho do setor em 2026.
Nessa hipótese, empresas vinculadas à habitação popular e à infraestrutura poderiam encontrar oportunidades na manutenção dos investimentos. Essa é uma leitura de cenário, e não uma garantia de expansão: o volume de obras dependerá de recursos disponíveis, contratações e execução.
O principal ponto de atenção será a combinação entre investimento e equilíbrio das contas públicas. Para que os estímulos alcancem também os empreendimentos dependentes de crédito de mercado, será necessário um ambiente que favoreça financiamento acessível e confiança para decisões de longo prazo.
Se Flávio Bolsonaro for eleito: mudanças econômicas e atenção à transição
As propostas de Flávio Bolsonaro disponibilizadas pelo TSE incluem equilíbrio fiscal, redução de impostos, revisão de regras regulatórias e um programa de desestatização. O documento também contempla habitação, com referência ao Casa Verde e Amarela, além de saneamento básico.
Para a construção civil, a possibilidade de reduzir entraves e custos empresariais seria um dos aspectos a acompanhar. Caso as medidas sejam implementadas e produzam os efeitos esperados, poderiam contribuir para melhorar o ambiente de investimento.
Entretanto, propostas de redução tributária ou reorganização do Estado não significam queda imediata no custo das obras. Seus efeitos dependerão do desenho das medidas, da aprovação necessária e de como receitas e despesas serão equilibradas.
Outro ponto importante será a transição das políticas habitacionais e dos investimentos em andamento. Para empresas com contratos e planejamento de longo prazo, a clareza sobre regras, fontes de financiamento e continuidade das operações será tão relevante quanto o anúncio de novos programas.
O que será decisivo em qualquer um dos cenários?
Embora os candidatos apresentem prioridades distintas, alguns fatores serão determinantes para o setor em ambos os casos.
Crédito disponível: construtoras precisam financiar a produção, enquanto compradores dependem de condições compatíveis com sua renda. A disponibilidade de recursos influencia os dois lados do mercado.
Previsibilidade: uma obra atravessa diferentes etapas e pode levar anos até a entrega. Mudanças pouco claras dificultam a elaboração de orçamentos, a contratação de fornecedores e a decisão de lançar empreendimentos.
Capacidade de execução: anúncios de investimentos precisam se transformar em projetos viáveis, contratação, desembolso e andamento das obras.
Produtividade: o aproveitamento de materiais, a organização das equipes e a redução de retrabalho continuarão relevantes para proteger as margens.
Esses fatores ajudam a evitar uma interpretação simplificada do cenário eleitoral. Nenhum resultado, isoladamente, assegura um ciclo de crescimento ou determina uma retração da construção civil.
Como as empresas podem se preparar para 2027?
Para quem atua na cadeia da construção, uma resposta prática é trabalhar com diferentes cenários de vendas, custos e financiamento. Isso permite avaliar quais projetos permanecem viáveis diante de condições mais favoráveis ou mais restritivas.
Também vale revisar processos que geram desperdício, atrasos e dependência excessiva de ajustes durante a execução. Na contratação de fornecedores, preço, capacidade de entrega e compatibilidade com o projeto precisam ser avaliados em conjunto.
Nas instalações hidráulicas, por exemplo, o planejamento antecipado e a definição das soluções conforme as necessidades da obra ajudam a organizar compras, montagem e execução. Essa preparação ganha relevância tanto em um período de expansão quanto em um mercado mais seletivo.
A eleição definirá a direção do próximo governo. Dentro de cada empreendimento, porém, planejamento e controle da execução continuarão sendo decisões essenciais para transformar oportunidades em obras entregues.
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Análise de cenários elaborada com informações consultadas em 14 de outubro de 2026. Os efeitos discutidos são possibilidades condicionadas à implementação das políticas e à evolução da economia.


